Cartazes Inspiradores de Alan Amorim

Tue, 05/31/2011 - 00:45
Hoje vamos mostrar para vocês, em mais um post exclusivo para os leitores do Abduzeedo Brasil, cartazes inspiradores feitos por Alan Amorim para seu trabalho de conclusão em Design Gráfico na PUC do Paraná. Os cartazes ficaram tão bacanas que até mesmo o orientador incentivou o Alan a divulgar os trabalhos. Nós gostamos bastante do estilo, das cores e da técnica usada por Alan para produzir as artes, então aproveitem para conferir mais detalhes sobre alguns cartazes e visitem alanamorim.tumblr.com para ver a coleção completa.
Meu nome é Alan Amorim, tenho 22 anos, sou recém-graduado em Design Gráfico pela PUC do Paraná, recentemente estou cursando uma pós de História em Quadrinhos, aqui em Curitiba.
Milk
Ainda que o cartaz traga a figura estilizada de Harvey Milk – indicando de cara o gênero do filme -, o que o designer põe em relevo, lançando mão de um mero contraste entre cores, são os dois pilares da vida do protagonista que delineiam o drama de Gus Van Sant : a política e a homossexualidade. A boca rosa, o primeiro elemento que o azul faz saltar a nossos olhos, dá ênfase à Milk como (porta-)voz da comunidade gay de São Francisco; o botton, largamente usado nas campanhas políticas norte-americanas, traz o símbolo mais reconhecido mundialmente do movimento pelos direitos gays: o triângulo rosa, datado anteriormente à Segunda Grande Guerra (“recordação” da homofobia nazista) e adotado como bandeira a partir dos anos 70, época em que se passa o filme.
Death Proof
No segundo filme da série Grindhouse, Tarantino homenageia os filmes B dos anos 70 e deixa claro que o seu compromisso é com o horror de quinta categoria: a “pretensão” não foi ser levado a sério, mas fazer um filme descompromissado, divertido e superficial de sangue, mulheres e carros, todos envolvidos em perseguições e nos fetiches do diretor. Escolhendo dois elementos marcantes do filme - o carro “à prova de morte” do sarcástico assassino interpretado por Kurt Russel e o close nas pernas de uma mulher forte e sexy -, o designer deixa implícito todos os outros e passeia pelas interpretações e expectativas que os próprios espectadores contróem no começo de cada uma das partes do filme, sem saber quais as intenções do assassino e do que são capazes as mulheres que ele escolhe como alvo. Olhando para o cartaz, não sabemos qual a intenção do motorista nem a da mulher deitada na estrada, e, caso um deles esteja vulnerável, qual: ao ver o nome de Tarantino, não podemos deixar de lado a possibilidade de uma mulher não estar ciente do fato de que é uma isca, nem de imaginar as consequências desse encontro “casual”.
Minha inspiração vem dos cartazistas poloneses (não na sua estética, mas no conceito), que na época do comunismo não podiam veicular os cartazes originais dos EUA, por isso faziam suas próprias versões. Nisso, aproximavam-se mais do cartaz como arte do que como cartaz publicitário. Daí vem o nome do projeto, "Kino" significa "Cinema" em polonês.
Spirited Away
Em A Viagem de Chihiro, Hayao Miyazaki nos apresenta a um universo fantástico, envolto de mistério e simbologia. O diretor, a partir de uma premissa simples, mergulha os espectadores num mundo que ao mesmo tempo choca, encanta e intriga; trata-se de uma obra densa, a ser vista e digerida: a animação expõe a humanidade, nos dois sentidos da palavra. Dentre seus personagens enigmáticos, um dos que mais chama a atenção é o fantasma “Sem Rosto”. Seu comportamento oscilante (hora gentil, hora vilanesco; hora agressivo, hora indiferente) gera opiniões diversas sobre a natureza de sua relação com Chihiro e o seu papel na jornada dela. Por ser um personagem marcante e um exemplo assaz representativo do cinema de Miyazaki, ele foi escolhido para figurar no cartaz do longa. Com uma proposta gráfica mais ou menos abstrata, o designer, inspirado pela natureza inconstante e indecifrável do fantasma, mostra-nos Sem Rosto se confundindo com o fundo, numa ideia de camaleão.
Volver
Nessa releitura, o designer reduz a linhas gerais o poster original de Volver, sem perder a identificação com o referente e a estética kitsh do cineasta. Acrescentando um elemento, a faca ensanguentada na mão de Raimunda - personagem destaque do longa, pela qual Penélope Cruz foi a primeira espanhola a ser indicada ao Oscar de melhor atriz -, acrescenta também uma camada de interesse pelo filme e, além de representar a cena memorável em que ela segura a arma com que sua filha matou o pai, brinca com o trágico em cores alegres, o que Almódovar faz com maestria em suas comédias.
Os cartazes foram feitos com colagens de colorplus, utilizando relevo com papel cartão, fotografados posteriormente e digitalizados. Os cartazes tem como objetivo ter uma unidade entre todos, sempre trabalhando com um pequeno numero de cores e uma imagem principal.
Kill Bill Vol. 2
Elegendo o amarelo como cor principal do cartaz, tomado pela heroína de Uma Thurman, o designer mantem-se, à sua maneira, fiel à estética da campanha publicitária do filme de Quentin Tarantino. Todavia, num rapel ao espectador de que as duas partes de Kill Bill são indissociáveis, é no volume 1 que o poster tem suas raízes. A marca de bala ao lado indica que a “noiva” escapa por pouco da morte pelos seus ex-comparsas; a mão no ventre e a lágrima no rosto nos levam à cena do primeiro filme em que ela acorda do coma e se dá conta de que sua filha lhe foi tirada. Despertando nossa curiosidade de ver a continuação da saga de vingança, temos aqui por que tudo começou.
Wizard of Oz
Wizard of Oz é um marco. Na época em que o cinema em cores engatinhava, o clássico infantil nos deu Somewhere Over the Rainbow cantada por Judy Garland, que viria a se tornar uma das maiores estrelas da Era de Ouro de Hollywood, numa das cenas mais lembradas da história e foi com sua atuação nele que Margareth Hamilton se fez um ícone. Assim, representar Wizard of Oz é incorrer, inevitavelmente, numa homenagem e o designer escolheu prestá-la à vilã da história. A memorável Bruxa Má do Oeste de Hamilton é representada com fidelidade e o fundo verde lhe confere um ar sombrio, ao passo que destaca o título em rosa soprado pela personagem, que segura “o” de Oz como um globo mágico em sua mão.
Vanilla Sky
Uma composição onírica de uma máscara com o céu como pano de fundo. Difícil dizer se é a releitura de um quadro surrealista ou do poster da regravação do longa Abre los ojos por Cameron Crowe e, em se tratando de um filme que questiona justamente os limites entre sonho e realidade, a dúvida não poderia ser mais pertinente. O céu aqui representado, no entanto, é mesmo o de Monet e faz uma referência direta ao título do longa, dando também as cores do cartaz. A máscara de reconstrução facial de David (umo a das mais famosas do cinema), que parece ter sido jogada ao céu, resgata a cena final do filme em que o protagonista se joga de um prédio, libertando-se de seu “pesadelo lúcido”.
Watchmen
Para quem já viu a adaptação da graphic novel de Alan Moore, a imagem resgata a cena de abertura do filme, em que o Comediante, empurrado pela janela, aparece entre estilhaços junto a seu broche, em foco e manchado de sangue. Todavia, a mão tombada no chão pode ser associada à narrativa como um todo, pois que o longa retrata o declínio dos Vigilantes, assassinados um a um, e não sua ascenção. Somando-se a isso o Smile, ícone do HQ e um símbolo de forte presença no filme, o cartaz concebido pelo designer não se restringe a uma única cena do filme de Zack Snyder. O fundo roxo põe em destaque o título, mesmo ele estando na margem inferior do cartaz. A fonte e a cor do título são, como no filme, as mesmas dos quadrinhos.
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Há personagens que aparecem nas nossas lembranças com uma frase, uma visão de mundo, uma expressão, outras… com cor. Clementine aparece em cores fortes. Tal como a fotografia realista de Eternal Sunshine of the Spotless Mind sem querer a destaca. Lembramos dela como Joel se recusa a esquecer: o cabelo azul, o cabelo vermelho, o casaco laranja que ele “viria a amar e a odiar”. E é com essa ideia que trabalha o designer. A faixa preta no rosto dela vem munida de duplo significado. Ao passo que caracteriza perda da identidade de Clementine para Joel – imagem reforçada pelo casaco laranja se desfazendo –, censura a lembrança do protagonista: como espectadores empáticos que Kaufmann nos leva a ser, não deveríamos nos permitir lembrar dela mais do que ele…
Star Wars
Dentro da proposta de identificação visual imediata, o designer se aproveita do status icônico da personagem Princesa Leia em Star Wars e revisita uma famosa imagem de divulgação do episódio IV (A New Hope, o primeiro a ser lançado, em 1977), na qual ela empunha uma arma. Representar a personagem de Carrie Fisher de costas é um capricho que o designer se permite, uma vez que o penteado da princesa é inconfundível.
Up
O cartaz é simples e direto. O designer apresenta um balão, elemento representativo da animação de Pete Docter, aproveitando-se do próprio título (curto e assim visualmente propício à assimilação pelo espectador da imagem evocada). Segurando o balão, temos Carl. A imagem faz assim referência à profissão do velhinho e também à cena em que ele passa a carregar sua casa mal e mal flutuante no caminho ao “Paraíso das Cachoeiras” com uma mangueira, um momento importante do longa que simboliza a atenuação do apego de Carl ao passado ligado a Ellie e o início, em contrapartida, de um elo verdadeiro com Russel: deixando de lado o papel de viúvo, passa a viver o papel de “avô” aceitando uma nova aventura.
Amélie
“A Torre Eiffel não esteve entre as locações para a realização de Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain.”. Talvez essa seja a primeira coisa que passe pela cabeça de um fã fiel do filme que seguiu os passos da personagem de Audrey Tautou por Paris, achando os lugares crus, sem o tratamento de imagem de Bruno Delbonnel. No entanto, ganhador de um oscar por uma fotografia em que predominam o verde, o vermelho e o amarelo (os dois últimos escolhidos pelo designer para figurarem no cartaz), o filme de Jean-Pierre Jeunet é um filme de manipulação. No alto da torre que não se acha em Montmartre, a protagonista é representada na função à que ela mesma se encumbe - a de observar a vida das pessoas e nela interferir -, meiga mas não inocente, com seu famoso sorriso malandro de canto de boca, Amélie. A licença para inserir o ícone francês o designer obtém, pode-se dizer, do universo lúdico do diretor.
Alice in Wonderland
Ainda que leve o título de apenas uma, o filme de Tim Burton mescla elementos das duas principais obras de Lewis Carrol, Alice in Wonderland e Through the Looking Glass, e gira em torno das irmãs Rainha de Copas e Rainha Branca, não de Alice. Desse modo, e tendo em vista a aplaudida caracterização da personagem de Helena Bonham Carter - filmada com uma câmera especial para aparecer com a cabeça gigante nas telas e cuja atuação no longa é marcante -, o designer customiza o vestido da Rainha de Copas, personagem do primeiro livro de Carrol, e a representa como uma peça do jogo de xadrez vivo em que Alice embarca no segundo livro do escritor. E, é claro, a estética fantástica do diretor não é deixada de lado na concepção do cartaz.
Closer
Meias arrastão inpiram sexualidade e evocam rebeldia: nada melhor para representar a atmosfera de Closer. Fazendo uma referência direta a uma das cenas mais memoráveis do filme e da carreira de Natalie Portman -, em que a stripper Alice dança na barra com sua inesquecível peruca rosa, o designer não apenas faz um jogo conceitual, mas também brinca com ares de mistério e sensualidade com o título da obra: as pernas de Alice aparecem em close.
Kika
Neste filme, Almódovar nos coloca na posição de voyeurs e não simplesmente de espectadores: na cena de abertura o diretor deixa claro que é pelo buraco da fechadura que perscrutamos o mundo absurdo de Kika. O designer utiliza do artifício do cineasta e nos provoca com a imagem “proibida” de parte de um decote, marca da protagonista, e que faz jus ao abuso da sensualidade característico da obra do espanhol. O soutien rendado e florido faz referência à estética kitsch do longa e as cores fortes e contrastantes, ao próprio cinema de Almódovar.
Para ver mais cartazes visite alanamorim.tumblr.com. Vale a pena!















